A desatadora dos nós da Ponte do Rodízio, por Erick Bernardes


 Hilário Duarte com seus filhos (Rita e o irmão). Acervo da família, Itaoca, década de 30
Hilário Duarte com seus filhos (Rita e o irmão). Acervo da família, Itaoca, década de 30

Hilário Duarte, nascido e criado na ilha de Itaoca, jamais carregou no espírito a vergonha popularmente nomeada de preguiça. Claro que não, homem dado a caminhadas, não hesitava quando carecia atravessar do bairro Mutuá até o Portão do Rosa, ou mesmo do Gradim ao Porto da Pedra, dentre outras perambulações. Andava quilômetros sem conta, bom para todos, gente boa.


Sabe-se que entregar correspondências, recados e resoluções de casos burocráticos, em apoio à associação de moradores, insuflava em Hilário certa animosidade. Amante confesso dessas viagens a pé e voluntárias: altruísta. Todos o queriam bem. Carregava consigo a humildade característica dos que seguem lentamente a vida, mas chegam. Demorava o dia todo, entretanto, quase sempre o ato de ver o pôr do sol denotava o retorno do senhor Hilário ao lar. Exatamente, tão logo o crepúsculo lambia o céu, o coroa simpático retornava.


Ninguém na ilha soube ao certo quando a tal hérnia decidiu pegar o coitado para Cristo. Isso mesmo, chamavam a isso de "rendido", característica típica dos portadores dessa disfunção física. Uma hérnia que alcançava a patela do joelho esquerdo. Necessidade de cirurgia específica. Contudo, precariedades inumeráveis existiam por SG (existiam?), pobre sendo operado na cidade? Nem no sonho. Há casos de hérnia que diminuem a velocidade dos passos. Homem lento, mas constante, foi um trabalhador "rendido".


Certa tarde, por volta das dezoito e trinta, o retorno à ilha contou com acontecimento incomum. Sem dúvida afirmará ser assunto paranormal o leitor exagerado, considerará enganação o interpretante incréu. Porém, o caso se deu para os lados da Ponte do Rodízio, acesso obrigatório aos ilhéus de Itaoca. Naquele tempo a passagem era uma ponte sobremaneira rústica. Dois postes em posições paralelas sobre os quais se firmavam tábuas dispostas em filas laterais e lineares, também ripas de trinta centímetros de largura. Só que a estrutura girava ao ângulo de 180 graus. Verdade, a intenção consistia em dar abertura aos barcos provenientes do rio Imboaçu que por ali transitavam. Mas o fato é que a narrativa entrou para os anais das terras gonçalenses. Hilário Duarte, camarada andarilho, deparou-se com a cena peculiar: uma senhora pra lá de idosa, carregando consigo um barbante grosso e lustroso contento meia dúzia de nós bem elaborados. Exato, constituíam daqueles nós do tipo marinheiro em espaçamentos de duas em duas polegadas, e ela de braços esticados tentando bloquear o caminho do nosso personagem.


— Boa tarde, Senhora. Preciso atravessar, por favor.


Hilário não se irritava à toa. Sujeito cordato, pediria licença quantas vezes fosse necessário, acaso a história não tomasse modos sobrenaturais.


— Posso passar, senhora?


— Claro, Hilário, mas preciso antes lhe entregar uma coisa e lhe dar o recado. Fui designada pra isso.


Meu Deus, que sensação estranha. O certo é que o nosso andarilho de Itaoca se arrepiou. O brilho dos olhos da tal mulher idosa obteve nuance outra, o semblante mudou e, antes de ir embora, pôs na palma da mão do nosso personagem o barbante cheio de nós espaçados.


— Segure firme, Hilário. Seja forte! Conheço seus desejos. Vim para viabilizá-los. Pegue, esse é o fio da fortuna. Um presente pra você, vindo do lado de lá. Entende o que quer dizer lado de lá? Só não pode revelar pra ninguém, nem deve dizer que me viu. A cada desejo feito mentalmente, você vai ter que desatar um nó desses que têm no barbante e, no dia seguinte, o desejo será atendido. Mas... repetindo, nunca conte pra ninguém.


Bom, caro leitor, não sei você, mas eu mesmo me arrepiei; um frio na espinha de súbito. O "lado de lá" referido decerto não era a Praia da Luz, tampouco haveria de ser a Praia de São Gabriel, de jeito nenhum. Melhor nem querer saber. Os nós do barbante eram apertadíssimos, confessou o nosso narrador. Daria trabalho desatá-los.


A descrença por vezes joga de vilã, não é? O que quero sugerir com isso? Refiro-me a pouca importância dada por Hilário ao "presente" da velha. Já acomodado no seu lar, de banho tomado e refeição na mesa, nosso andarilho de Itaoca revelou em casa o segredo. Descrente como sempre foi, narrou o caso à esposa que, por sinal, também pareceu pouquíssimo preocupada.


Em resumo: voto quebrado, sigilo partido e tchau, tchau, benefícios provenientes do outro mundo. Seria uma versão abrasileirada da história de Aladim e a lâmpada dos desejos? Não sei, pior do que propagar incertezas é jurar saber daquilo que não me cabe.


*Essa história só nos foi possível por causa da narrativa da Sra. Rita Duarte, filha do Sr. Hilário, amiga e leitora da nossa coluna.

Erick Bernardes é escritor e professor mestre em Estudos Literários.




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