A necrópole israelita em Vila Iara, por Erick Bernardes


Foto de Tatiana Costa, a necrópole israelita em Vila Iara, SG
Foto de Tatiana Costa, a necrópole israelita em Vila Iara, SG

Em 2 de novembro, há quase uma semana, recebi pelo correio uma carta ao melhor modo de antigamente. Incrível, correspondência mesmo, um envelope acartonado e sobrescrito pela caligrafia da antropóloga e amiga. Decerto estive surpreso, pois desde muito não me cai em mãos correspondência alguma que não seja cobrança de banco. Só mesmo alguém como ela, preocupada com a informação e a dignidade da palavra para lançar no papel algo extraordinário e de letra bonita. A carta dizia o seguinte:

2 de novembro de 2020


Querido amigo,


Decidi responder por esta modesta correspondência sobre aquele assunto que me perguntou no ano passado. Provável que não se lembre, não o culpo, de lá pra cá muita coisa aconteceu. Nos encontrávamos no Flisgo, evento literário como há tempos não acontecia em São Gonçalo. Comprei seu livro, o vermelhinho e com caranguejo na capa. Você quis saber sobre o cemitério israelita, tradicionalmente referido como necrópole dos gringos, situado na Rua Sá Carvalho. Não recorda? Compreensível. A mente da gente tem lá suas armadilhas.


Posso lhe assegurar a localização territorial exata. O cemitério se encontra entre o centro da cidade e o sub-bairro nomeado de Vila Iara. É um espaço sombrio de recordação, lógico, impossível não ser quando se trata de mortes. Os estudiosos do assunto afirmam que o cemitério é o mais cuidado de SG, e de fato é. Não há lixos, tampouco se sente daqueles fedores característicos dos túmulos municipais. A nossa comunidade adquiriu o terreno em 1925, e não foi barato, caríssimo, por sinal. Mas, não convém ao caso.


Papai contou que o sepultamento inaugural aconteceu em 1927, dizia ser o tal primeiro sepultado um primo distante da região hoje chamam de Eslovênia, no entanto, nunca se aprofundou na conversa. Perdi a conta das tantas vezes cujos jornais da Capital referiram ao cemitério como Caminho das Almas. Não gosto do apelido, muito menos me agrada chamarem de cemitério dos gringos. Que gringos? Já somos aqui em casa a sexta geração de brasileiros de origem israelita. Sem contar os muitos familiares distantes. Se botar na ponta do lápis somos ao menos uns vinte por cento (no mínimo) só aqui em São Gonçalo. Gringos uma ova! Perdão, desculpa o arroubo, anos e anos de menosprezo cansam.

Aqui em casa tem foto, tudo na mala antiga da família, muitos corpos sendo sepultados por causa da peste bulbônica, em 1855, que dizimou gente de todas as raças e matizes. Você sabe, né, meu filho, ainda mais atualmente, as pandemias não perdoam pobre nem rico, nem cor de pele. Olha a Covid aí, óh, para nos mostrar a verdade. Tudo pó, todos voltaremos ao pó.

Depois de ler a carta da dona Judith, recorri aos sites e artigos mais confiáveis. Resultado? Ela tem razão, definitivamente não errou em data alguma. A tal epidemia que matou tanta gente se deu no séc. XIX. Por causa da quantidade enorme de falecidos devido à peste, os sepultamentos tiveram de fato de se realizar no espaço da Rua Sá Carvalho. De acordo com a tese de Andréa T, Côrte: tanta gente não podia ser enterrada no “cemitério que então funcionava em torno da Igreja Matriz; então, foi usada a área que pertencia à Província desde 1852 para que ali fossem feitos enterramentos excedentes, dando origem ao Mato das Almas e, depois, Caminho das Almas” (CÔRTE, 2009).


Esse cemitério judaico fundado em São Gonçalo é ainda hoje administrado pelo Centro Israelita de Niterói, cujo presidente é Jacob Lipster, médico que trabalhou bastante no município. Ainda nas palavras de Côrte (2009): há lápides com grafias em hebraico, o espaço possui, juntamente a uma árvore com mais de cem anos, uma necrópole dedicada às vítimas do “holocausto praticado pelo regime hitlerista. No local está enterrado um sabão feito com gordura humana pelos nazistas e ali há uma solenidade anual em memória das vítimas do holocausto, celebração realizada em data móvel, entre o Ano Novo Judaico (Rosh Hashna) e o Dia do Perdão”.

Enfim, se alguém tem dúvida da veracidade dos fatos, vá lá fazer uma visita. Mas antes, dizem necessitar de autorização da referida associação israelita. Fiquemos por aqui, "Boh-ehr Toe-v"!


Referências:

CÔRTE, Andréa Telo da. Os judeus de Niterói: imigração, cidade e memória (1910-1980). Tese (Doutorado) UFF, Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, 2009. 556f.

Erick Bernardes é escritor e professor mestre em Estudos Literários.




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