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Anhanguera e o gigante gonçalense de pedra, por Erick Bernardes


Foto: Erick Bernardes

Devo confessar certas preferências poéticas do quilate de um Gonçalves Dias. Sim, não nego, enxergo essa relação do morro do Engenho Pequeno com o poema romântico nomeado Gigante de Pedra. A comparação é minha, assumo os riscos, e funciona mais ou menos como a alegoria de um ser enorme e capitalista atacando um gigante de pedra natural, manso e adoecido, tornado personagem colosso da nossa literatura.


Semanas atrás, falamos sobre a Pedreira Carioca, região fronteiriça entre o Rocha e Engenho Pequeno. No entanto, o que não mencionamos é a concorrente e vizinha denominada Pedreira Anhanguera. Mais próspera e robusta, funcionando bem ainda hoje, abocanha boa parte do paredão rochoso onde tantas vezes brinquei de desbravador aventureiro.


Já foi o tempo áureo da exploração de jazidas rochosas nas áreas de São Gonçalo. Barro Vermelho, Galo Branco, Alcântara, Mutondo, Colubandê, Lindo Parque, Coió, enfim, quantidades de indústrias desse tipo faliram ou tiveram seus alvarás cancelados por incompetência financeira ou irregularidades de extração mineral. É uma espécie de concessão proporcionada pela governança local. Gera renda, discussões esquisitas e empregos também. Mas acabam, óbvio, necessário reconhecer que terminam cedo ou tarde. Contudo, vez ou outra, alguma boa administração de punho se mantém forte e sadia. Conclusão? No lugar onde ocorreria mais uma derrocada, há resistência e ascensão empresarial dentro dos padrões legais — e foi assim que a pedreira de nome Anhanguera cresceu e prosperou. Sim, Anhanguera, o nome é esse de fato. Na língua tupi quer dizer: "monstro velho que morde". E parece mesmo, abocanhando legalmente as paredes minerais entre Rocha e Engenho Pequeno. É só atravessar a Estrada da Carioca e pronto, o cidadão curioso se depara com casa em estilo diferenciado. Trata-se da sede industrial de extração da pedreira. Construção bonita. Seria ela uma arquitetura normanda ou franco-suíça? Não sei, confesso desconhecimento total quanto ao assunto. Só um leitor construtor confirmará.

O camarada mais curioso pode passar ao largo do terreno repositório da produção de brita e areia e olhar a Anhanguera. Não é bom transitar, melhor manter distância. Caminhões do tipo betoneira, tratores e automóveis caçamba, tudo isso a circular e pôr em movimento o tal monstro antigo. Sim, rosna com o barulho dos tratores. Morde mesmo. Basta mirar ao longe a montanha rochosa doravante explorada e bastante similar a um gigante de pedra estirado e agonizante por causa dos seus pedaços arrancados. É como se a Pedreira Anhanguera houvesse dado algumas dentadas no morro feito de rocha. Pois é, tradicionalmente a geografia me serviu de lugar de memória. O gigante teve o seu quinhão de granito arrancado entre os flancos divisórios e personificados, onde nas temporadas de férias eu subia para modular rádio Px e comer os frutos maduros das dezenas de pitangueiras existentes por lá. Lembranças ternas. Que delícia de escalada à época do recesso de férias no Colégio Luiza Honória do Prado. Duas semanas de intervalo escolar, tranquilão das aulas de matemática. Lugar de natureza para brincar.


Bem, inevitável reconhecer, tive medo de voltar ao monte e contemplar. Mas subi. O senso de autopreservação de adulto me falou alto e mesmo assim subi — e foi quando me surgiu na mente a relação poética, sobre o gigante de pedra adormecido da minha juventude. Conforme no poema de Gonçalves Dias (1851):


"Nas duras montanhas, os membros gelados.

Talhados a golpes de ignoto buril.

Descansa, ó gigante, que encerras os fados,

Que os términos guardas do vasto Brasil".


Sendo assim, encerramos o assunto com a Baía da Guanabara ao longe. O brilho da imensidão nos convidando à inevitável contemplação. E eu ali tentando descer do velho morro personificado como entidade colossal, aquele mesmo que seria ferido das investidas da Pedreira Anhanguera. Mais ou menos isso, uns trinta anos após.

Erick Bernardes é escritor e professor mestre em Estudos Literários.




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