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Conga ou a Conga? Por Erick Bernardes

Juro a você, caro leitor, isso não tem nada a ver com a música reboladeira da Gretchen. Muito menos há espaço para propaganda de tênis ou sapato comercial de antigamente. Ponho você a par de algo pouquíssimo divulgado, a história de um sub-bairro de Monjolos, a Conga.


Recordo de um pagode acontecido no interior do Distrito de Monjolos. Tempo bom, época de curtição, a turma metia as caras nos bares da região só pra dançar o forrozão gratuito. A Conga é assim, lugar afastado e por isso mesmo ainda guarda resquícios de um antiga comunidade fluminense. Isso mesmo, herança colonial preservada e território sobremaneira intrigante. Entre uma ou outra música produzida pelo teclado forrozeiro do cantor Betto Lopes, conversávamos alegres com os moradores dos arredores. De acordo com a dona Tatá, proprietária do bar, ainda na década de 60 se podia dizer que a Conga era uma fazenda constituída por raríssimos loteamentos e plantações de laranjas e limões a perder de vistas.

Antiga cultura do lugar, um pedacinho da história colonial de São Gonçalo resistindo à urbanidade e à violência metropolitana. O nome da saudosa dona Judith ecoa com carinho nas terras do interior de Monjolos. Afirmam ter sido ela uma ex-escrava e só bem depois adquiriu um lote pertinho da praça da Conga. Juro, caro leitor, ao menos a terça metade dos moradores afirma ser também descendente dos quilombolas. Eles orgulham-se da própria história, coisa boa de ver! Uma parte dos moradores jura ser de origem dos escravizados provenientes do Golfo da Guiné. Não sei, admito ter obtido só especulações no bar. Narrativas orais, reconheço, nada de oficial pra oferecer.

Sabe-se que, de tempos pra cá, a Conga vem recebendo influxo de gente do Brasil inteiro. Migrantes de outros estados e também do interior do Rio de Janeiro integram a comunidade. Talvez por isso as tradições venham perdendo força. Se antes, as várias línguas e os representantes de nações africanas formadoras do lugar ditaram o sotaque regional, agora a miscelânea é outra: igrejas das mais diversas denominações prevalecem, em vez do candomblé dos antepassados. No lugar da agricultura, da Folias de Reis, do Jongo e das Festas Juninas, são os lotes de cimentados que aos montes surgem no sub-bairro Conga.


Bem, necessário torcer para a urbanidade chegar mansa e amiga da comunidade. Nada de crítica ao desenvolvimento, se de fato houver evolução sincera. A tendência é se criar movimentação maior. Claro! Passam muitos carros pela Conga em busca de caminho tranquilo de entrada em Marambaia, Itaboraí, Magé, enfim. Eu, por minha vez, fiz boas camaradagens por lá. Pessoal simpático e cheio de histórias de vidas pra contar. E o forró do Betto Lopes continua, toda sexta-feira, no Bar do Peixe, ao sabor da madrugada.


Erick Bernardes é escritor e professor mestre em Estudos Literários.


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