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Contatos de terceiro grau com o E.T. da Maria Rita, por Erick Bernardes


A luz forte e de aspecto incomum atravessou a porta enorme enferrujada e assustou as duas baratas que se digladiavam no azulejo da lanchonete chinesa do centro de São Gonçalo. Sim, justamente, dois pares de antenas alternando golpes entre si, como se fossem espadachins estudando movimentos adversários antes de atacar, tudo muito comum - e eu imerso na cena, até que resolvi pedir um lanche:


- Ei, psiu, esse pastel é de quê?


O relógio da parede marcava as três da tarde naquela quarta-feira. Cansado e suado, feito tampa de marmita, depois de andar a pé por pura teimosia. Os dois quilômetros caminhados serviram de motivo para entregar livros Cambada autografados a dois novos leitores. Exatamente, entrega em mãos, nada de correio dessa vez. O calor do inverno papa-goiabas me fez estacionar o corpo. Enfim, parei pra sentar e comer um daqueles lanchinhos de caráter duvidoso. Mas, qual não foi a minha surpresa, quando recebi áudios no meu celular provenientes da querida Graciane Volotão.


_ Oi, Erick, tudo bem? Sobre o lendário Extraterrestre da Maria Rita de que lhe falei na live, lembra? Acho que esses áudios ajudam você a criar a sua história. O ET era famoso na rádio e na escola na localidade Maria Rita. As crianças da turma participavam dos programas e prestavam atenção na interferência do transmissor. Era muito legal, de uma história inventada, muita coisa aconteceu. O alienígena ficcional se materializou em desenhos, redações e um enorme boneco pendurado em cima do portão da Rádio Novo Ar onde papai trabalhava. Um dia esse ET amigável foi embora e nunca mais voltou. Um barato contar essa narrativa pra você.


Pois é, caro leitor. Incrível como a fantasia acomete as pessoas de uma forma interessante. Nossa amiga Graciane relatou o tal caso acerca do extraterrestre criado pelo querido pai radialista. Sim, exato, as interferências disfarçadas durante os programas radiofônicos ganharam uma narrativa de ficção ao melhor modo Star Wars. Imagine a cena: durante o programa, o ET assumia o controle das ondas sonoras através de algum aparelho marciano e se conectava aos terráqueos no intuito único de conversar com os alunos ou namorar a sócia da Escolinha da Tia Rita. Colégio que, coincidentemente, situava-se na localidade homônima, a Maria Rita. Criaram um boneco sósia do tripulante do disco voador, levaram-no para a festa da escola, entupiram o coitado de brigadeiro e glacê azul de bolo. Contaram versões variadas acerca da vinda do personagem incomum. A rádio recebera centenas de cartas com destino ao alienígena amigo tornado concorrente do Papai Noel. Melhor, substituição mais adequada, pelo menos uma referência folclórica inventada aqui. Pois é, toda estrutura mítica se construindo na cidade.


Noutro momento, uma das moradoras locais cantava o Ofício de Nossa Senhora veiculado pela emissora, concomitante ao badalar dos sinos da igreja próxima, quando o chiar da transmissão aumentou tanto, a ponto de interromper as rezas da difusora. _ “Mas logo no momento da oração, justamente quando os pensamentos combinavam em intenção?”, questionou inconformada a devota. Seria isso coincidência mesmo? Estaria o tal habitante de outro planeta a brincar com os viventes da região, lançando seus raios desconhecidos na antena da emissora local? Não sei, muitas perguntas, necessário reconhecer. Mas juro que gostaria de descobrir, pois a rádio se encontra nos anais da memória de São Gonçalo. Se não fosse a importante colaboração da Graciane Volotão, a reunir os áudios de parentes e amigos, a lenda do ET da Maria Rita cairia como tantas outras nas raias do esquecimento.


Por fim, tão logo terminei de conferir os valiosos áudios, paguei o pastel e o refresco e esqueci a luta das baratas. Peguei o caminho do Shopping Partage. Nada de compras naquele dia, óbvio que não. Somente uma estratégia de quem já se acostumou ao frescor do ar condicionado em uma dessas lojas em vias de falência, porque não vende nada pra ninguém. Sim, talvez por isso a história do alienígena da Maria Rita tenha aquele “quê” de verossimilhança. Isso mesmo, calor e economia de outro mundo na cidade. Um ET decerto se agradaria. E como diz um amigo poeta e referência por aqui: “eita, São Gonçalo!”.


Ouça os ruídos provocados pela nave do ET:


Erick Bernardes é escritor e professor mestre em Estudos Literários.




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