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Coroado ou história de novela, por Erick Bernardes


Pense em você tentando alcançar seu lugar de moradia: ruas sem pavimentação, excessos de barro ou lama, iluminação precária, tudo isso empapando sapatos surrados e dificultando a volta para casa. Obviamente lançaríamos no ar a frase "a vida da gente às vezes se revela uma novela". Que bom que pensou assim, caro leitor, porque é mesmo essa comparação que nos remeterá à mais curiosa constatação histórica: a ligação da novela televisiva da década de 70, narrada justamente agora. Sim, verdade, da tal dramaturgia tupiniquim de Janete Clair surgiu a nomenclatura do sub-bairro gonçalense Coroado.

Conta-se que o menino Herivelto deveria ter alcançado os seus dez ou onze anos de idade quando foi morar no Coroado, sub-bairro gonçalense e encravado na Brasilândia. O garoto só não sabia é que o seu novo espaço de moradia seria considerado um dos maiores complexos de habitação de São Gonçalo e ainda receberia o nome popular por causa de certa novela televisiva. Incrível, conhecer a estreita ligação do Coroado com a dramaturgia da década de 70 foi de fato surpresa para o menino Herivelto: a famosa novela Irmãos Coragem. Quem diria! Logo ele riu do apelido quando ouviu tal alcunha. Não haveria como não rir. Era preciso "coragem" para encarar a lama. A comédia tentando atenuar o drama real. Nada de urbanização. Como o governo construiu quase mil apartamentos sem pavimentação ali no entorno? Deus do céu. De fato o Coroado tem se revelado lugar de gente guerreira, necessário reconhecer, tenho amigos por lá.


Pois é, há de se ressaltar, os mais criativos e antigos moradores faziam piada na época devido à falta de pavimentação nas ruelas que circundavam as dezenas de prédios com apartamentos erigidos e vendidos a preços populares. Exato, apartamentos da Cohab, e depois transmutada em Cehab (Companhia Estadual de Habitação) — e o lugar realmente tinha a ver com a cidade fictícia de Coroado. Nessa época a emissora do capeta exibia a sua versão primeira da novela popular, a própria galera dos prédios de lá apelidou assim.


Sabe-se que, assim como na cidade fictícia de Goiás, aqui em São Gonçalo histórias de lama e sofrimento se tornavam realidade à comunidade. Isso mesmo, lugar de exploração. Alguém tem dúvida? Qualquer semelhança da ficção global com o nosso povo papa-goiabas não me parece coincidência. Sim, precariedade administrativa, um tema fundamental, tanto lá quanto cá. Habitação e desleixo com o povo é coisa séria. Pense na quantidade de trabalhadores pagando o seu carnê de financiamento ao governo que nem sequer asfaltou a rua. Isso mesmo, coragem meus irmãos gonçalenses, é preciso coragem.


Bem, necessário informar que o Herivelto cresceu, tornou-se professor de matemática e também meu amigo pessoal. Guarda os momentos de infância com ternura. Afirma ser ainda folião inconteste do bloco carnavalesco mais famoso do Coroado. Todo ano o grupo Tem Chifre Mas Não Fura é seu lugar de diversão nas andanças pelas ruas. Carnaval à moda antiga e cerveja na mão. Impossível não gostar. Confidenciou que continua mantendo seu apartamento no bloco 24, gargalhou da coincidência do número no jogo do bicho. Falando do sub-bairro do coração com gosto, chegou até estalar a língua depois dos dois chopes tomados dentro do restaurante onde ele próprio me contou essa história.


Em resumo, três alegrias eu tive: ganhei essa história sobre o Coroado, revi meu professor amigo e ainda me regalei com um almoço daqueles; picanha de forrar o estômago, com chope geladinho e tudo. Obrigado, querido professor, pela refeição, pela narrativa e pela amizade histórica.

Erick Bernardes é escritor e professor mestre em Estudos Literários.



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