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Eliane e o Jardim Miriambi, Erick Bernardes


Aos três anos de idade ela chegou nos braços do pai, acompanhada da mãe e dos seus oito irmãos naturais. A família com pouco dinheiro no bolso, esperança aumentada pela fé católica e uma pequena chácara conseguida em arrendamento. Bem, assim começa a história de criação de uma amiga em meio a um dos lugares mais difíceis de se obter narrativas. Acompanhe este enredo, pois se trata de relato oral, todo ele dedicado a você.


Naquela época era assim, havia mais filhos nas residências do que panelas sobre fogão. Sim, dureza mesmo, mas Eliane crescera feliz, visitava a região vizinha à Lagoa Seca e os arredores do bairro Pacheco, quando ainda se podia considerar o local bucólico para morar. Comiam frutas e raízes plantadas na pequena propriedade. Uma delícia, tempo de inocências e certas ignorâncias tidas como saudáveis.


Os irmãos mais velhos da menina Eliane aprendiam artesanato junto aos internos do Instituto Casa do Garoto, espaço educacional público destinado ao cuidado de menores de 18 anos. Não raramente os dois irmãos mais velhos da nossa protagonista voltavam para casa com um esteira feita de taboa trançada ou cesto de vime ou cipó que confeccionavam nas aulas de artes. Valia a pena, vendiam ou trocavam os artesanatos por ovo de galinha carijó, fumo de rolo socado ou combustível para lampião.


— Tempos outros, meu querido! O pouco que havia lá em casa tinha enorme valor pra gente. Eu me divertia fazendo bolhas de sabão ou desenhando com giz colorido bonecas gigantes com rabiscos no chão.

Ademais, Eliane jurou ter sido uma das primeiras alunas da Escola Municipal Rotary, quando ia embora pelas trilhas do matagal florido. Sim, minha amiga cresceu lá no Jardim Miriambi e, aos 10 anos de idade, uma tosse intermitente acometeu cronicamente seus órgãos respiratórios. Inevitável, ardia mesmo o peito — e ainda assim ela insistia em viver normalmente. Tentava ignorar a fraqueza, embora o cof-cof minasse suas forças, sensação ruim. Acaso houvesse xarope eficiente, não se enquadrava na tradição do pai ter de correr à farmácia e deixar lá o pouco de lucro obtido com as plantações. Claro que não, em vez de remédio broncodilatador ou pomada de Vick Vaporub sobre o peito, melhor era garantir a carne seca no feijão do dia seguinte.


De acordo com a própria Eliane, a danada da enfermidade que quase lhe fragmentou as faringes foi a maldita coqueluche. Exato, doença contagiosa que só sarou por causa de um curandeiro local. Explico: o índio peruano Uchôa, radicado há décadas em São Gonçalo, encontrou a menina chorosa e tossindo sobre a calçada do Conjunto Habitacional Mahatma Gandhi, também conhecido como CEHAB do Jardim Miriambi. Recorreu à fórmula milenar da terra natal dos Andes adaptada à flora gonçalense. Isso mesmo, incrível do que é capaz um ancião peruano sabido, fez chá de ervas com o tal do chaco-chaco, mato curativo com propriedades antimicrobianas — e a menina nunca mais sofreu de tosse. Graças ao bom Deus!


Agora, está claro que Eliane me olha sorrindo, só porque perguntei se já atingira os 50 anos depois de se tornar avó. Sim, indiscutível, minha amiga do Jardim Miriambi sabe mesmo contar histórias. Aliás, fico na dúvida se a risada comedida dessa gonçalense se dá devido à minha pergunta etária ou por causa alguma ficção marota com vistas a me satisfazer a curiosidade. Só sei que está aí como o prometido. Talvez a única história que fale sobre o bairro em questão. Dito e feito!

Erick Bernardes é escritor e professor mestre em Estudos Literários.



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