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Guarani ou Mundel: segunda parte da oralidade, por Erick Bernardes


Membros da Associação de Moradores na inauguração do Ciep Getúlio Vargas, aquele que viria a ser o atual Colégio Vila Guarani/Foto: Acervo Família Fontoura

Semana passada obtivemos o privilégio de conhecer a origem do bairro Guarani. Sim, tratamos da explicação do apelido Mundel ou Mundéu, por causa do significado interessante. Pois é, mas de fato nem tudo nos ficou revelado, narrativa longa, decerto saudosa. Por que então não espremer essa laranja chamada história? Melhor não, esqueçamos o trocadilho da fruta. O assunto já deu foi pano pra manga no mundo político. Convém deixar fluir naturalmente o suprassumo do passado desta segunda parte de fonte oral.


— Bom, Mere. Você disse que tem mais. Lembra?


— Tem razão, faltou eu falar do meu pai. O entusiasmo em relatar me fez pular detalhes. Mas vamos lá, pois carrego orgulho gigante dentro de mim. Restou-me apontar que meu papai ajudou na construção do referido Ciep. Lembro da minha mãe fazendo lanches a serem devorados pelos operários da obra. Construção grande, estrutura pesada, gasto enorme de energia. Necessário aplacar a fome dos trabalhadores. Na época, havia muitos tios na família. Deus do céu, formigueiro de gente! Pioneiros no Guarani. Tio Carlos Constantino era eletricista e encanador, fazia de tudo nesses serviços de reparos, habilidosíssimo. A esposa dele trabalhou como merendeira, depois exerceu a coordenação escolar do lugar. Exato, família Constantino, outro clã pioneiro.


Bem, caro leitor, importante ressaltar: se na primeira explicação (crônica anterior), parte da família chegara da região de Alegre, o resto do clã migrara de Jerônimo Monteiro, ambos do estado do Espírito Santo. Verdade, a gênese regional: Fontouras e Constantinos. Que narrativa, hein! Incrível ver brotar fontes seguras por de meio relatos assim. Sabe-se que, depois da família se instalar no Mundel ou Guarani, alguns jovens se casaram com as próprias primas. Natural, naquele tempo funcionava assim. Parentes se uniam por falta de opção matrimonial.

Maximiliano Constantino e Maria Fontoura (irmã de Manuel Fontoura)/Acervo Família Fontoura

— Ah, além disso, Erick, importa registrar que sequer existia rua aberta na época. Mata fechada, fechadíssima, floresta densa. Naquela circunstância, os antigos assistiam as ações do prefeito de São Gonçalo chamado Joaquim Lavoura. Acho que foi o primeiro e único da cidade a nos dar ouvidos. Meu tio-avô só morou em terreno de roça ao longo da jornada da vida. Pouco ou quase nada lhe chegou de estudo. Humilde. Guerreiro. Espírito resiliente. Figura sem vaidades. Mas teve a hombridade de se dirigir à prefeitura no intuito de requerer auxílio urbano para que aquele começo de sociedade se desenvolvesse bem. Isso mesmo, solicitou que o prefeito da ocasião abrisse ruas e implementasse a luz elétrica.


Pois é, de acordo com a nossa narradora, importa enfatizar a precariedade das condições. Só lamparinas se viam nas salas ou quartos rústicos dos moradores. Mere relata que lampiões e velas sustentavam as noites e iluminavam os demais compartimentos. Resultado? O prefeito Lavoura atendeu à solicitação. Constatou necessidade e urgência. As famílias só tendiam a aumentar.


A família juntou mais irmãos, sim, operação braçal. Meu avô materno, Maximiliano Constantino e seus filhos eram hábeis no desbaste da mata. Exatamente. Vigorosos. Abriram caminhos com golpes de foice. Claro, única ferramenta à mão, tudo feito no punho firme do migrante espiritossantense. O migrante é antes de tudo um forte. A imagem que virou mito na cidade se consolidou. Que imagem? Explico. Pense no prefeito Lavoura montando o seu próprio tratorzinho e abrindo dúzia e meia de ruas e ruelas por lá. Imagine a cena, moradores transformando troncos e toras de mata nativa em postes de luz. Suporte de madeira, tudo fabricado com árvore cortada - e o prefeito ordenando a distribuição da energia elétrica. Uma quase paródia dos 50 anos em 5, pastiche do animadíssimo e histórico presidente JK. Ou, para os mais fantasiosos, a lembrança de um Mad Max Papa-goiabas mal adaptado. Imagem é tudo, como nos incutiu o comercial refrigerante.


— Então, continuando. O lugar até aí não era registrado, óbvio que não - e o meu tio só pensando no conforto do povo. Não havia condução na época. Registros informam que levou uma eternidade para que a primeira empresa de ônibus explorasse as redondezas. Eu mesma andava a pé até o bairro do Barracão para pegar o Santa Izabel. Incrível como durante anos isso aconteceu e nem parece ter mudado tanto assim.


Mas como funciona a questão dos endereços, já que, ora chamam o lugar de Mundéu (ou Mundel), ora referem como Guarani?


— Bom, verdade, maior loucura isso. Os moradores até hoje só chamam de Mundel. Mas você tem razão quanto à problemática do endereçamento postal. Temos certas impertinências com o CEP, pois nosso código de correio não é reconhecido. Registram o endereço sob vários nomes, menos Guarani. Por exemplo, minha correspondência vem como Sacramento, já as cartas da minha vizinha chega como Monjolos. O da outra moradora daqui registram como sendo Pacheco. Já tive sérios impasses quando trabalhei no Rio, mas deixa pra lá.


Valeu, Mere, obrigado.

Frente do atual Colégio Estadual Vila Guarani/Acervo Família Fontoura

Erick Bernardes é escritor e professor mestre em Estudos Literários.




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