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Guerra de mamonas no Engenho Pequeno, por Erick Bernardes


Pé de mamona/Reprodução internet

“O bloco sai hoje! É hoje, é hoje! Guarda dinheiro pro sorvete de hortelã!” Comemora e planeja a rapaziada toda cortada de capim-navalha de tanto brincar de polícia e ladrão no morro do urubu. Sim, mais ladrão que polícia é o que se vê. Subia o morro o time dos bandidos com estilingues nas mãos e munidos cada um de um saco de mamonas para defesa da honra dos guerrilheiros. Exato, o time policial subia depois o morro dando estilingadas para cima no intuito de acertar as mamonas ardentes e espinhosas nos pseudobandidos. Lembrando que as únicas regras eram que os ladrões deveriam estar sem camisa e sem boné. Contudo, nem uma nem a outra parte poderia usar bolinhas de jurubebas naquela guerra planejada. Os pais reclamariam, decerto perceberiam a brincadeira perigosa.


Melhor não, nada de guerra de jurubebas, só mamonas convinham. Seria um prenúncio do futuro daqueles meninos? Bem, parece que sim, pois a metade, pelo menos a metade dos garotos já crescidos se bandeou para o lado mau na vida real. Havia esforço por não levar muito tiro de mamona no corpo. Doía um pouco, ardia, e era carnaval, nada de querer sentir o suor ardendo a pele quando estivessem pulando no bloco. A madrinha só vigiava os passos do afilhado, enquanto ostentava camisa da Porto da Pedra, chapéu da Portela e um reco-reco capenga pintado nas cores do mengão. Sim, ela tocava no bloco, também para não perder o esposo de vistas rodopiando com a tal boneca de pano e fazendo graça. Claro que chamava atenção a dança ensaiada. Meninas e senhoras se encantavam com a simulação de dança. A madrinha estava certa, com os bugalhos ligados, um pouco virado pra lá e outro tanto pra cá, isso sim.


Mas a molecada aguardava o bloco de carnaval onde se concentrava a bateria de respeito. Claro, o puxador já trêbado de cachaça, um ou dois burrinhos de brinquedo e cavaleiros de mentira, pierrôs e bate-bolas dançando logo à frente. A boneca de pano fingindo sambar e colada com pés presos ao sapatos do padrinho, jamais se pode esquecer. Sim, isso que importava, ver de noite, no bloco, a boneca mamolenga de pano, mamolengando e colada no pé do padrinho. Tempo bom.


No dia seguinte, acordavam bem cedo, no intuito único de procurar dinheiro que algum descuidado teria marcado bobeira e deixado cair na madrugada de samba. E achavam, vez ou outra uma nota de um Barão amassadinha, ou moeda de valor considerável se insinuava no chão. Gastavam o dinheiro com chocolate, o tal chocolate Surpresa, aquele com desenho de tigre na embalagem. Onde você acha que o protagonista adquiriu tanto conhecimento sobre animais? Sim, nas figurinhas de tabletes Surpresa.


No Engenho Pequeno, mais tarde, acabaria o carnaval, outra guerra surgiria, mas não de caroços de mamonas. Enfim, era bom, no tempo que usavam só mamonas.

Erick Bernardes é escritor e professor mestre em Estudos Literários.





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