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Pião e alguns giros por aí, por Erick Bernardes



Aquela foi a quarta-feira mais sem proveito que já tive. Pedi o Uber, entrei no veículo e parti para o colégio onde iria ministrar uma palestra sobre a história de São Gonçalo. Endereço correto, nome da escola certíssimo — e nada do motorista achar o lugar.


Realmente considero uma das experiências mais frustrantes desde que o projeto "Crônicas de papa-goiabas" iniciou. Você também passará pela experiência da frustração quanto ao enredo. Ora o aplicativo nos lançava para o bairro Nova Cidade, ora apontava o Mutuapira, enfim, doidera mesmo. Ficamos dentro do Uber a rodar o tempo todo. Um giro em mergulho na rua do lava-jato, outra volta tentando sair pela travessa ao lado. Estariam os mesmos professores do colégio solicitante preocupados por eu não achar o lugar? Creio que não. Acaso estivessem, teriam me ligado. Pois é, pelo menos isso.

Lembro de ter tentado usar o WhatsApp no intuito de contactar a responsável pela instituição. Se eu estava incomodado? Claro que sim, porém, irritado mesmo se mostrava o condutor, suava pra danar. O homem mastigava um chiclete grosso, saliva depositada nos ângulos externos da boca. O ar condicionado se negava a gelar. A cada guinada no volante, um olhar atravessado. Rodamos. Só sei que rodamos e rodamos.


— Senhor Erick, tem certeza que digitou corretamente na tela do aparelho o seu destino? Estamos dando voltas aos montes por aqui e não achamos.


Desnecessário reconhecer o bom senso do condutor. Mais uma rua, e outra, giramos e nos encontramos na mesma entrada. "Deus do céu, parece uma espiral", externei insatisfação — e nada da internet pegar. Tampouco o sinal de telefone deu o ar da graça. Decidi:


— Vamos embora, meu caro. Melhor não forçar a barra.


Há dessas coisas da vida, caro leitor, e tenho certeza que você já sentiu sensação semelhante. Até o marasmo do ar parecia oferecer atmosfera estranha. Voltas e mais voltas, tonteamos, pois aquele não era dia bom. Cansamos de zanzar de carro. Perguntei: "Motorista, me cobra quanto pra me deixar em casa agora?" Aceitou. Tudo certo com fins de retornar ao lar. Mas... antes disso, uma pausa e a pergunta lançada ao senhor caminhante do lado esquerdo da rua: "por favor, pode me informar o nome deste lugar?"


— Pião. Vocês entraram no Pião, por quê?


Estava explicado, enfim. Necessário agradecer ao transeunte. Acabávamos de tomar ciência: havíamos nos perdido na localidade do Pião, sub-bairro de São Gonçalo. Só sei que nunca mais ouvi falar da escola. Telefone mudo. No mapa, o endereço jamais existiu, as mil e uma voltas findaram ali, bem perto de Nova cidade, juntinho ao bairro do Mutuapira.

Erick Bernardes é escritor e professor mestre em Estudos Literários.



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