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Trindade: lavoura arcaica ou loteamento moderno, por Erick Bernardes


Poderíamos contar a história por meio de três frases apenas. Era uma vez uma próspera fazenda. Certo dia loteram seus arredores. E é onde hoje se localiza o bairro Trindade. Viu aí? Simples assim. Mas não, melhor não, o barato da crônica é puxar os fios delicadamente e envolver o leitor com jeito. Afinal, já estamos cheios da dureza da vida, não é mesmo? Portanto, pintemos essa narrativa com as cores do entretenimento usando o pano de fundo chamado história. Vamos ao caso.

Ele chegou sorrateiro e se tornou um figurão importante no município de São Gonçalo. Sim, jamais imaginou que casaria por aqui e sua filha um dia daria o primeiro pontapé para a fundação de um dos bairros mais tradicionais da cidade. Duvida? Explico: falo dos pioneiros Francisco José Ramos e Thereza Maria Moreaux Ramos, marido e mulher, respectivamente. Gente que deixou marcada no mapa do município a atividade agropecuária e foi quando, mais tarde, a filha Leonor daria ensejo ao começo da já conhecida especulação imobiliária deste nosso trecho fluminense. Então, convido você a saber um pouco sobre a origem do bairro Trindade, reduto residencial conhecidíssimo pelo povo gonçalense.


Sabe-se que a literatura histórica acerca do município registrou algumas imagens do que outrora constituiu importante fazenda em São Gonçalo. Pois é, Fazenda Trindade, adquirida pelo casal José e Tereza, ainda no século XIX, cuja localização daria ensejo ao loteamento gigante como nome homônimo à fazenda fundadora. Verdade, a filha dos proprietários, a "doce" Leonor, foi morar no Rio, casou-se com Lauro Corrêa, quando fizeram prosperar ainda mais a fazenda. Coisa linda de se ver. Incrementaram a produção, alimentos sortidos. Abacaxis, goiabas, laranjais belíssimos, um luxo só. Sem contar a criação de bovinos de ótimas linhagens. Sim, houve até premiações em exposições pecuárias. Incrível, agronegócio de primeiro mundo. Mas, conforme o ditado, durou pouco aquela maravilha. Deu-se a derrocada, pois faleceu o esposo da Leonor. Daí em diante, o leitor já sabe, a ausência do amor amargurou a vida da viúva — e foi o que faltava para o genro ganancioso dar vazão às ambições. Sim, dona Leonor aceitou a proposta do genro malandro. Exato, Humberto Soeiro de Carvalho era o nome do esposo da filha da Leonor. Sujeitão sagaz soprou a música da ganância na alma da sogra. Resultado? Fatiaram as terras cafeeiras e nomearam aquele chão de Imobiliária Trindade LTDA. Nada mais conveniente.



Bem, o leitor curioso conseguirá sem esforço fotografias bem conservadas e disponíveis na internet. Desnecessário especular veracidades. Narrativa extensa e interessante ao alcance de alguns dígitos, sem dúvida um enredo bonito e com cara de novela televisiva. Exato, histórias de época, trama bacana. Só de pensar em homem de posses criando gado e plantando café pelas bandas de cá, o vagar da mente me lança no tempo das histórias dos velhos barões fluminenses e fica difícil não fazer alusão às novelas das oito. Mas voltemos ao assunto sobre a fazenda transformada em imobiliária, que virou bairro, e serve agora de assunto para crônica.

Pode-se dizer: a transformação não foi de todo ruim. Hoje o bairro Trindade possui complexo universitário, comércios, espaços de entretenimento, empreendimentos variados. Necessário reconhecer alguma prosperidade nisso. Talvez um dos poucos lugares planejados de São Gonçalo. Se, no passado, o município sofreu de péssimas vendas de lotes e terrenos sem estruturas decentes, transformando a próspera região rural gonçalense no que se vê agora, decerto não foi este o caso da Imobiliária Trindade LTDA. Pois esta criou condições habitáveis e de saneamento antes de abocanhar as prestações suadas dos futuros compradores. Uma exceção à especulação, decerto.


Fiquemos então por aqui, antes que a prosa se transforme em novela. Até a próxima!

Erick Bernardes é escritor e professor mestre em Estudo Literários.



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