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Douglas Ruas quer excluir mortes por intervenção policial das metas de bonificação no Rio

há 5 horas
3 min de leitura

Proposta do governador eleito exclui mortes decorrentes de intervenção policial das metas do Sistema Integrado de Metas; Rio registrou 294 mortes por agentes de Estado de janeiro a maio de 2026


Douglas Ruas/Foto: divulgação
Douglas Ruas/Foto: divulgação


O governador eleito do Rio de Janeiro, Douglas Ruas (PL), pretende retirar as mortes provocadas por policiais dos critérios utilizados para avaliar o desempenho das forças de segurança e conceder bonificações. A proposta foi apresentada durante a campanha eleitoral e ameaça enfraquecer um dos mecanismos de controle da letalidade policial.


Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, Ruas considera inadequado o modelo atual por entender que ele coloca no mesmo indicador mortes decorrentes de legítima defesa e homicídios praticados por criminosos. O argumento, porém, ignora uma distinção fundamental: contabilizar mortes provocadas por agentes do Estado não significa considerá-las automaticamente ilegais. O registro permite medir a frequência dessas ocorrências, identificar padrões e avaliar os resultados das políticas de segurança.


Criado em 2009, o Sistema Integrado de Metas (SIM) estabelece indicadores de desempenho para as polícias Civil e Militar. Entre eles está a redução da letalidade violenta, categoria que reúne homicídios dolosos, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte e mortes decorrentes de intervenção policial. O cumprimento das metas pode resultar em premiações financeiras aos agentes.


A retirada das mortes por intervenção policial desse cálculo reduziria o peso dessas ocorrências na avaliação dos resultados da segurança pública. Policiais poderiam alcançar metas e receber bonificações mesmo em áreas onde aumentasse o número de pessoas mortas em confrontos com agentes do Estado.


Os números mostram a dimensão do problema. De janeiro a maio de 2026, o Rio registrou 294 mortes decorrentes de intervenção policial, segundo relatório do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). Embora represente redução de 11,71% em relação ao mesmo período de 2025, quando ocorreram 333 mortes, o resultado equivale a quase duas pessoas mortas por dia.


A proposta surge em meio ao acompanhamento judicial da política de segurança fluminense. Na ADPF 635, conhecida como ADPF das Favelas, o Supremo Tribunal Federal determinou medidas de controle e redução da letalidade policial.


Ruas pretende substituir parte da avaliação tradicional por indicadores relacionados à retomada e à ocupação de territórios dominados por organizações criminosas. Seu programa também prevê emprego de drones, reconhecimento facial e presença permanente das forças policiais em comunidades.


A consequência prática da medida é direta: ao retirar as mortes por intervenção policial dos critérios de bonificação, o Estado deixa de penalizar ou premiar as forças de segurança com base no número de pessoas que morrem em suas ações.


Na prática, a polícia pode alcançar metas e receber bonificações mesmo que aumente o número de mortos em confrontos. Isso não elimina a responsabilidade jurídica individual de cada agente, sujeito a investigação e punição por eventuais ilegalidades. Mas, do ponto de vista da gestão e da avaliação de desempenho, a letalidade deixa de ser um fator que pesa contra ou a favor da corporação.


Ou seja: mata-se mais, e a instituição não é responsabilizada por esse indicador específico.


Até agora, não foi apresentado um novo modelo detalhado de avaliação que permita verificar quais mecanismos de controle seriam mantidos. A proposta ainda não está em vigor.


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