Flávio compra serviços de manipulação digital e, ato contínuo, mais de 3,3 mil perfis falsos de Lula são identificados nas redes
Reportagens do Intercept Brasil e do ICL Notícias revelam pagamentos a empresa associada à oferta de ferramentas de influência digital e a existência de milhares de perfis que usam indevidamente a identidade do presidente. Ainda não há provas de ligação entre os caso
Por Cláudio Figueiras

Duas investigações jornalísticas publicadas nesta semana levantam suspeitas sobre o uso de ferramentas de manipulação digital na campanha presidencial de 2026. Uma delas revelou pagamentos da campanha de Flávio Bolsonaro a uma empresa que ofereceu, nos Estados Unidos, um sistema capaz de criar perfis falsos e disseminar desinformação. A outra identificou mais de 3,3 mil contas nas redes sociais que utilizam indevidamente a identidade do presidente Lula e de seus familiares.
Segundo reportagem publicada pelo Intercept Brasil na sexta-feira (16), a campanha de Flávio pagou R$ 600 mil à empresa Elytron. Outros R$ 131,9 mil foram declarados pelo PL. Documentos apresentados por um ex-consultor descrevem uma ferramenta destinada à criação de identidades digitais, segmentação de eleitores e distribuição coordenada de conteúdos.
A reportagem não encontrou provas de que o sistema tenha sido utilizado pela campanha. A Elytron e representantes de Flávio negaram a contratação de serviços ilegais.
Na quinta-feira (15), o ICL Notícias divulgou levantamento que identificou mais de 3.370 perfis que se apresentam indevidamente como Lula ou integrantes de sua família. Parte dessas contas publica conteúdos ofensivos, informações enganosas e imagens produzidas com inteligência artificial.
O levantamento não atribuiu a criação ou o controle dos perfis a uma organização específica.
Investigações podem se cruzar
As duas reportagens apresentam elementos que justificam uma investigação sobre possíveis conexões, especialmente pela utilização de identidades falsas e ferramentas de inteligência artificial.
Entretanto, não há evidências de que a Elytron tenha criado, financiado ou administrado os perfis identificados pelo ICL. Também não está demonstrado que todas as contas façam parte de uma operação coordenada.
Outro elemento é uma investigação eleitoral noticiada pelo ICL em setembro. O Tribunal Superior Eleitoral determinou o prosseguimento da apuração sobre suposta atuação coordenada de perfis no Instagram em benefício de Flávio Bolsonaro. A ação apresentada pela coligação de Lula apontou 1.826 publicações colaborativas envolvendo 492 perfis.
São três conjuntos de informações distintos: pagamentos a uma empresa associada à oferta de tecnologia de manipulação, identificação de milhares de perfis impostores e suspeitas de coordenação digital examinadas pela Justiça Eleitoral.
A eventual conexão entre eles depende de provas sobre autoria, financiamento e funcionamento das contas.
Os contratos, os serviços efetivamente prestados pela Elytron e os registros das plataformas poderão esclarecer se houve alguma operação irregular relacionada à campanha presidencial.
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