De Abílio Diniz a Piracicaba: 37 anos depois, camisetas do PT voltam ao centro de denúncia de armação policial
Em 1989, sequestradores foram apresentados com roupas do partido às vésperas da eleição contra Collor; agora, familiares e detidos acusam PMs de forjar associação entre suspeitos de tráfico e a campanha petista

Uma denúncia de abuso policial em Piracicaba, no interior de São Paulo, recuperou um dos episódios mais controversos da eleição presidencial de 1989: a apresentação dos sequestradores do empresário Abílio Diniz vestindo camisetas do PT, dois dias antes do segundo turno entre Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Collor.
Trinta e sete anos depois, novamente às vésperas de uma disputa presidencial decisiva, policiais militares paulistas são acusados de obrigar suspeitos de tráfico de drogas a vestir camisetas de apoio a Lula durante uma ocorrência policial.
O caso aconteceu na quarta-feira (21), quando dois adultos foram presos e um adolescente de 17 anos foi apreendido em Piracicaba. Imagens divulgadas pelo senador eleito Guilherme Derrite mostram os três algemados, usando camisetas idênticas de campanha.
A mãe do adolescente afirma que o filho vestia uma camiseta preta no momento da abordagem e que os policiais determinaram a troca de roupa. Um dos adultos detidos apresentou relato semelhante. A deputada estadual Professora Bebel (PT) também recebeu denúncias de mulheres que afirmam ter sido coagidas por policiais a entregar camisetas de campanha. A reportagem da TV TODODIA acrescenta que uma das mulheres abordadas afirmou que policiais pediram cinco camisetas de Lula.
A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo sustenta que a ocorrência envolveu apreensão de drogas e arma. A Polícia Militar informou que analisará as acusações contra os agentes. O PT pediu investigação às autoridades eleitorais e à Polícia Federal.
O sequestro de Abílio Diniz
Em 11 de dezembro de 1989, o empresário Abílio Diniz, dirigente do Grupo Pão de Açúcar, foi sequestrado em São Paulo por um grupo ligado a organizações revolucionárias latino-americanas. Ele foi libertado em 16 de dezembro, apenas dois dias antes da eleição presidencial.
Na apresentação dos sequestradores à imprensa, alguns dos presos apareceram usando camisetas do PT. A associação visual entre os criminosos e o partido de Lula ganhou repercussão em um momento decisivo da campanha. Advogados e integrantes do grupo denunciaram que policiais haviam obrigado os detidos a vestir as roupas antes da exposição pública. Os presos também relataram torturas e outras irregularidades durante a investigação.
A suspeita de manipulação policial atravessou os anos e foi recuperada em trabalhos jornalísticos sobre a eleição de 1989, incluindo o livro Notícias do Planalto, de Mario Sergio Conti. Não foi comprovada participação do PT no sequestro.
A acusação de que policiais obrigaram os presos a vestir camisetas petistas foi objeto de apuração, arquivada dois anos depois por falta de provas, conforme reportagem da Folha de S.Paulo publicada em 1999. Em 2018, um dos participantes do sequestro voltou a afirmar publicamente que os detidos haviam sido obrigados a usar as camisetas.
A repetição de um expediente
Nos dois episódios, a controvérsia envolve o mesmo recurso: apresentar pessoas acusadas de crimes usando símbolos associados a Lula, em um período de forte polarização política e a poucos dias da votação. Em 1989, a imagem dos sequestradores com camisetas petistas ajudava a construir uma associação entre o partido e um crime de enorme repercussão nacional. Em Piracicaba, a divulgação das imagens de suspeitos de tráfico com camisetas de Lula produziu associação semelhante nas redes sociais.
A diferença está no estágio das investigações. O episódio de 1989 é objeto de documentação histórica e de denúncias posteriores sobre a atuação policial. No caso de Piracicaba, ainda será necessário esclarecer a origem das camisetas, as circunstâncias em que foram vestidas e a eventual responsabilidade dos agentes envolvidos. A apuração também deverá estabelecer se houve manipulação deliberada da apresentação dos suspeitos com finalidade político-eleitoral.
O senador eleito Guilherme Derrite, responsável pela divulgação das imagens, declarou que sua publicação tinha como objetivo discutir o envolvimento de adolescentes com o tráfico e a redução da maioridade penal. Afirmou também que não fez referência às camisetas e defendeu a apuração das acusações.
A Secretaria da Segurança Pública paulista declarou que não compactua com desvios de conduta e orientou as pessoas que denunciam agressões a formalizar suas queixas.
O episódio ocorre na reta final da eleição presidencial de 2026, quando Lula e Flávio Bolsonaro disputam o segundo turno marcado para domingo (25).
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