Entre manchetes e caos: 'sobre o óbvio' no cotidiano da educação brasileira
Por Hélida Gmeiner Matta

Acompanhar as notícias sobre educação na mídia tradicional, especialmente nos jornais, hoje mais acessíveis nas versões online, ao mesmo tempo em que vive o cotidiano escolar, é um exercício angustiante, inevitavelmente. Por outro lado, é necessário.
Das notícias que trago para essa matéria, a mais antiga tem pouco mais de um mês. Todas trazem dados que, interligados, expressam a situação atual da educação básica pública e comprovam a afirmação feita por Darcy Ribeiro há quase 50 anos. Foi realista à época, mas foi também, lamentavelmente profético.
Selecionei 5 matérias, de diferentes fontes, linhas ideológicas e instâncias governamentais. Todas demonstram o estado caótico atual.
“Câmara aprova anistia a gestores que não investiram o mínimo em educação na pandemia”[1] Manchete de 11/04/22 no G1, conta como o congresso validou uma argumentação descabida, dos gestores que negligenciaram a educação durante os meses de escolas fechadas em razão da pandemia de Covid-19.
Em 25/03/22 duas manchetes chamaram a atenção, uma delas, bombástica, como se diz no jargão jornalístico. Ambas estão conectadas pelos interesses da extrema direita conservadora. “RJ: governo publica decreto para converter rede de ensino técnico em escolas cívico-militares”[2] do jornal Brasil de Fato discorre sobre apropriação e transformação da FAETEC em escolas do modelo militar, pelo governo do estado. Notícia que revoltou os profissionais, o sindicato e provocou reação da Assembleia Legislativa.
Mas no mesmo dia, outra manchete: “O bolsolão do MEC virou o maior escândalo de corrupção do governo Bolsonaro”[3]A notícia da Isto é que, apesar de estarrecedora, apenas confirma que os recursos, provenientes dos nossos caros impostos, muito menos chegam às necessidades e demandas da educação, mas sim são investimentos dos gabinetes paralelos e lobistas pentecostais do governo federal. É de embrulhar o estômago de qualquer um.
As duas últimas manchetes tratam de temas locais, São Gonçalo e Niterói. Em 20/03/22 O Globo publicou “Em Niterói, pais de alunos com deficiência cobram mais inclusão nas escolas da rede”[4], nos mostrando que a luta por educação inclusiva está longe de ser vencida mesmo em uma cidade que acredita ter a melhor educação inclusiva da região metropolitana do Rio.
“Escolas de São Gonçalo voltam às aulas mas pais relatam falta de professores”[5], de O São Gonçalo. A mais antiga das manchetes selecionadas é de 10/03/22, mas veio à tona novamente após denúncias, nesta semana, de que em cerca de 100 escolas da rede municipal, que conta com 114 unidades escolares, a carência permanece. Mesmo depois de mais de um mês e de um concurso público em vigor, a prefeitura se mantém morosa na convocação de profissionais, deixando os estudantes do município sem uma educação adequada.
É preciso ler esses fatos articuladamente, é preciso enxergar seus resultados obscuros. Darcy Ribeiro tinha razão. A nossa elite política promove o fracasso da educação pública brasileira como forma de manter nossas classes populares na subalternidade cultural.
Colaboração e revisão: Alba Nascimento
[1] https://g1.globo.com/politica/noticia/2022/04/11/camara-pec-que-anistia-gestores-que-nao-investiram-o-minimo-em-educacao-na-pandemia.ghtml#amp_tf=De%20%251%24s&aoh=16497955055538&referrer=https%3A%2F%2Fwww.google.com&share=https%3A%2F%2Fg1.globo.com%2Fpolitica%2Fnoticia%2F2022%2F04%2F11%2Fcamara-pec-que-anistia-gestores-que-nao-investiram-o-minimo-em-educacao-na-pandemia.ghtml
[2] https://www.brasildefato.com.br/2022/03/25/rj-governo-publica-decreto-para-converter-rede-de-ensino-tecnico-em-escolas-civico-militares
[3] https://istoe.com.br/o-mensalao-de-escandalo-bolonaro/
[4] https://oglobo.globo.com/rio/bairros/em-niteroi-pais-de-alunos-com-deficiencia-cobram-mais-inclusao-nas-escolas-da-rede-25439109#amp_tf=De%20%251%24s&aoh=16497966982636&referrer=https%3A%2F%2Fwww.google.com&share=https%3A%2F%2Foglobo.globo.com%2Frio%2Fbairros%2Fem-niteroi-pais-de-alunos-com-deficiencia-cobram-mais-inclusao-nas-escolas-da-rede-25439109
[5] https://www.osaogoncalo.com.br/geral/119222/escolas-de-sao-goncalo-voltam-as-aulas-mas-pais-relatam-falta-de-professores#amp_tf=De%20%251%24s&aoh=16497972126866&referrer=https%3A%2F%2Fwww.google.com&share=https%3A%2F%2Fwww.osaogoncalo.com.br%2Fgeral%2F119222%2Fescolas-de-sao-goncalo-voltam-as-aulas-mas-pais-relatam-falta-de-professores
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Hélida Gmeiner Matta é professora da Educação Básica da rede pública. Pedagoga, Especialista em alfabetização dos alunos das classes populares, Mestre em Educação em Processos Formativos e Desigualdades Sociais e membra do Coletivo ELA – Educação Liberdade para Aprender.










































































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