São Gonçalo: como na política, cidade partida também na mobilidade
Rede de ônibus concentra itinerários em Alcântara e no Centro, mas não integra adequadamente os distritos. Moradores enfrentam trajetos indiretos e custos elevados para chegar à universidade, à orla e a outros espaços da própria cidade
Por Helcio Albano

Joãozinho mora no Rio do Ouro e acaba de conquistar uma vaga no curso de História da Faculdade de Formação de Professores da UERJ, no Patronato. A alegria de entrar numa universidade pública vem acompanhada de um problema: como chegar às aulas? Para vencer um trajeto dentro da própria cidade, precisará pegar dois ônibus. Com a passagem a R$ 5,50, serão R$ 11 para ir e outros R$ 11 para voltar. Ao fim de 22 dias de aula, R$ 484 somente em transporte, caso não tenha direito a algum benefício tarifário.
Maria mora no Largo da Ideia e quer aproveitar o sábado para conhecer o pôr do sol da Praia das Pedrinhas, na orla da Baía de Guanabara. O passeio também exige duas conduções. Para ir à praia e voltar, terá de desembolsar os mesmos R$ 22, fora o consumo da sardinha frita e da "cracudinha" de Brahma que tanto adora. Uber? Nem pensar! Numa simulação, a corrida poderia chegar a R$ 42 com tarifa dinâmica.
Joãozinho e Maria são personagens fictícios. Seus trajetos ilustram um problema que o Jornal Daki investiga: a desintegração espacial de São Gonçalo, expressa na distribuição das linhas de ônibus e na dificuldade de deslocamento entre os distritos. São comuns relatos de gonçalenses como Joãozinho e Maria que jamais conheceram as Pedrinhas ou a FFP.
Alcântara concentra os ônibus, mas não integra a cidade
Grande parte das linhas que atendem Ipiíba, no 2º distrito, e Monjolos, no 3º, converge para Alcântara e o Centro, no 1º distrito. Entretanto, essa concentração não se transforma numa rede capaz de distribuir os passageiros para Neves e Sete Pontes, nos 4º e 5º distritos.
O morador consegue chegar aos corredores centrais, mas frequentemente precisa de outra condução para alcançar bairros do outro lado da cidade, na região oeste, e também sudoeste. Em alguns casos, o caminho percorrido é maior do que a distância geográfica entre a origem e o destino. O problema não é a inexistência absoluta de ligações entre os distritos, mas sua distribuição desigual e a falta de regularidade de parte dos serviços.
Em Monjolos, as linhas 12 e 13, que atendem Jardim Catarina, são exceções e oferecem ligações regulares com a região oeste. As variantes 12A e 13A, que atendem Santa Luzia, apresentam irregularidade nos horários. A linha 20A, entre Almerinda e Praia das Pedrinhas, também existe, mas sua oferta irregular compromete a utilização cotidiana.
Essas conexões, concentradas em poucos corredores, são insuficientes para atender às necessidades de circulação dos moradores dos dois distritos. A situação é especialmente difícil para quem vive em localidades como Arsenal, Rio do Ouro, Anaia, Jóquei, Sacramento, Santa Isabel, Marambaia, Laranjal, Lagoinha, Tribobó e até Galo Branco, Rocha e parte do Mutondo.
Uma cidade distante da própria orla
A dificuldade de acesso à Praia das Pedrinhas não é um caso isolado. A Praia da Luz e a Ilha das Flores, onde funciona o Museu da antiga Hospedaria de Imigrantes, também integram o levantamento sobre as barreiras de mobilidade entre o interior e a faixa costeira.
O transporte interfere, assim, não apenas no acesso ao trabalho e à educação, mas também nas possibilidades de lazer, convivência e conhecimento do patrimônio histórico municipal.
No caso de Joãozinho, a dificuldade pode afetar a permanência na universidade. No de Maria, transforma um passeio dentro da própria cidade numa despesa que precisa caber no orçamento familiar.
Uma cidade que ainda espera pela integração
A fragmentação do transporte municipal - que está longe de ser de qualidade - persiste apesar dos instrumentos criados para organizar o serviço ao longo dos anos.
Desde 2012, os ônibus são operados pelo Consórcio São Gonçalo de Transportes, cuja concessão, baseada no monopólio, tem sua base legal questionada por decisões judiciais. Em 2022, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro declarou inconstitucional a Lei Municipal nº 425/2012. A decisão, contudo, não significa necessariamente a extinção automática do contrato, que vive uma espécie de "limbo" jurídico.
São Gonçalo também possui um Plano Diretor, instituído em 2009 e nunca colocado em prática, que atualmente está em revisão. E também um Plano de Mobilidade Urbana aprovado em 2024.
O MUVI, corredor projetado entre Neves e Guaxindiba, surge como possibilidade de reorganização do sistema. Mas sua capacidade de integrar os distritos dependerá também das linhas alimentadoras e das conexões com os bairros que hoje permanecem mal atendidos. Ainda é necessário esclarecer como essa reorganização alcançará as regiões mais isoladas. Uma discussão que segue travada pelo Executivo e o Legislativo e longe dos olhos da sociedade civil.
As consequências da cidade fragmentada
As consequências dessa desintegração ultrapassam os pontos de ônibus. A dificuldade de circular entre os distritos restringe oportunidades de trabalho, encarece o acesso à educação, limita o lazer e reduz o contato entre moradores de diferentes regiões. Essa separação também pode contribuir para a formação de experiências sociais, culturais e políticas distintas dentro do mesmo município.
É uma hipótese que merece ser investigada à luz dos contrastes eleitorais identificados pelo Jornal Daki entre os distritos de São Gonçalo. Foi justamente esse levantamento que motivou a presente reportagem, embora não seja possível atribuir os resultados das urnas à mobilidade urbana.
Quando os moradores têm poucas oportunidades de circular e conviver entre si, São Gonçalo também encontra dificuldades para se reconhecer como uma cidade comum.

QUADRO 1 — Conexões identificadas com a região oeste
Linha | Itinerário identificado | Situação operacional informada |
12 | Jardim Catarina – Covanca | Operação regular |
12A | Santa Luzia – Venda da Cruz | Horários irregulares |
13 | Jardim Catarina – Neves/Covanca* | Operação regular |
13A | Santa Luzia – Venda da Cruz, via Porto Velho | Horários irregulares |
20A | Almerinda – Praia das Pedrinhas | Oferta muito irregular |
*Os registros consultados apresentam divergências sobre o destino da linha 13. Os horários e a operação atual ainda precisam ser confrontados com informações oficiais.
QUADRO 2 — Linhas identificadas no 2º distrito (Ipiíba)
Linha | Itinerário identificado |
01 / 01A / 01B | Santa Isabel ou Sacramento – Centro/Alcântara |
04 | Várzea das Moças – Marambaia, via Alcântara |
08 | Engenho do Roçado – Alcântara |
15 | Jóquei – Fórum, via Alcântara |
20A | Almerinda – Praia das Pedrinhas |
22 | Várzea das Moças – Fórum |
25 / 25A | Jardim Tiradentes – Alcântara/Centro |
34 / 34A / 34B / 34C | Amendoeira ou Vila Candoza – Centro/Alcântara |
43 | Jardim Nova República – Centro/Fórum |
50 | Anaia – Centro, via Arsenal |
53 / 53A | Calaboca – Centro/Alcântara |
58 / 58C | Maria Paula ou Ipiíba – Centro, via Arsenal |
*Relação documental preliminar de linhas com origem, destino ou passagem identificada no 2º distrito. A inclusão não comprova que todas estejam atualmente em operação.
QUADRO 3 — Linhas identificadas no 3º distrito (Monjolos)
Linha | Itinerário identificado |
04 | Marambaia – Várzea das Moças, via Alcântara |
06 | Largo da Ideia – Coroado, via Alcântara |
07 / 07A | Guaxindiba – Centro/Alcântara |
12 / 12A | Jardim Catarina ou Santa Luzia – Covanca/Venda da Cruz |
13 / 13A | Jardim Catarina ou Santa Luzia – Neves/Venda da Cruz |
13B / 14C | Santa Luzia ou Jardim Catarina – Neves/Venda da Cruz |
21 | Jardim Bom Retiro – Fórum |
23 | Mundel – Fórum |
30 / 30A | São Pedro – Fórum, via Lagoa Seca ou Pacheco |
39 / 39A | Marambaia – Coroado/Alcântara |
40 / 40A | Apolo III – Fazenda dos Mineiros/Alcântara |
49 / 49A / 49B | Itaitindiba ou Quinta Dom Ricardo – Alcântara/Centro |
54 / 54A | Meia Noite – Centro/Alcântara |
Nota: A relação inclui linhas e variantes identificadas em registros documentais, algumas das quais podem ter sido alteradas ou descontinuadas. A circulação atual, especialmente das variantes 13B e 14C, ainda depende de confirmação junto à Prefeitura e às empresas operadoras.
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Helcio Albano é jornalista e editor-chefe do Jornal Daki.









































































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