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OU ISTO OU AQUILO: BRASIL COM S DE SOBERANIA

há 2 minutos
4 min de leitura

Por Mira Pimentel

Foto: Governo do Brasil
Foto: Governo do Brasil

Lendo hoje a poesia “Ou isto ou aquilo”, de Cecília Meireles, veio-me o pensamento de também escrever esta crônica e perguntar aos leitores: diante das escolhas que fazemos como sociedade, afinal, queremos isto ou aquilo?


Cecília fala das pequenas decisões da vida: ter sol ou chuva, guardar o dinheiro ou comprar o doce, ficar no chão ou subir aos ares. Parece simples, mas a poeta nos lembra que escolher é também renunciar. Na política, porém, nossas escolhas deixam de ser apenas pessoais: elas atingem a mesa das famílias, o prato das crianças, o salário dos trabalhadores, a escola, o hospital e a própria democracia.


Minha crítica ao bolsonarismo nasce justamente dessa inquietação. Vejo, nesse campo político, uma insistência em transformar adversários em inimigos, alimentar suspeitas e colocar a lealdade a uma liderança acima do compromisso com o país. Quando a política se converte em instrumento de poder pessoal, o interesse público corre o risco de ficar em segundo plano. E o Brasil não pode ser administrado como se fosse uma propriedade privada, uma herança familiar ou um negócio particular.


O episódio da carta divulgada em Miami, associada a Flávio Bolsonaro, também merece reflexão. O documento circulou em versões diferentes, e uma delas chamou a atenção pela inscrição “Estados Unidos do Brazil”, com Z, em um brasão antigo. A questão aqui não é desconhecer que essa grafia existiu historicamente, mas observar a confusão criada em torno de um documento político que pretendia falar em nome do país. Afinal, entre versões, correções e mudanças de apresentação, fica a pergunta irônica: quem pretende representar o Brasil precisa, no mínimo, saber o peso do nome que carrega.


Mas o problema brasileiro vai muito além de uma letra. O que está em jogo é a capacidade de governar com responsabilidade, respeitar as instituições e compreender que o poder não é propriedade de quem o exerce. O país não pode ser reduzido às ambições de uma família, aos interesses de grupos privilegiados ou à disputa pelo comando da nação.


Por isso, volto ao poema. Ou isto ou aquilo: ou respeitamos a democracia, mesmo quando o resultado nos desagrada, ou abrimos espaço para que a ambição pessoal tente ocupar o lugar da vontade coletiva. Ou entendemos o poder como responsabilidade pública, ou corremos o risco de vê-lo tratado como instrumento de interesses privados.


Não se trata de afirmar que um lado político é incapaz de errar e o outro concentra todos os defeitos. Qualquer pessoa que cometa corrupção ou abuse do poder deve responder por seus atos, seja de direita, de esquerda ou de qualquer outra corrente. O que não podemos aceitar é que a defesa de um líder se torne mais importante do que a defesa do país, das instituições e dos direitos de todos.


Cecília termina sem saber qual escolha é melhor: isto ou aquilo. Na vida democrática, entretanto, algumas escolhas não podem ser adiadas. Precisamos decidir se queremos um país que alimenta conflitos ou que constrói pontes; se preferimos a mentira conveniente ou a verdade necessária; se defendemos privilégios ou trabalhamos pela dignidade de todos.


E, quando penso no Brasil que desejo para os próximos anos, descubro que o nosso nome pode inspirar muito mais do que uma discussão ortográfica.


Brasil com S de saúde, para que ninguém morra por falta de atendimento.


Brasil com S de salário digno, para que o trabalhador não precise escolher entre pagar a conta de luz e colocar comida na mesa.


Brasil com S de segurança, para que nossas famílias possam viver sem medo.


Brasil com S de saneamento, porque água tratada e dignidade não podem ser privilégios.


Brasil com S de soberania, para que nenhuma ambição pessoal se sobreponha à vontade do povo.


Brasil com S de solidariedade, de sensibilidade social, de sabedoria política e de respeito às diferenças.


Brasil com S de educação, de ciência e de esperança.


Porque governar não é possuir. É servir. Não é enriquecer às custas do povo, mas criar condições para que o povo viva com dignidade. Não é transformar adversários em inimigos, mas reconhecer que a democracia exige convivência, responsabilidade e respeito.


Então, leitores, diante da poesia de Cecília Meireles e dos caminhos que a política nos apresenta, pergunto: ou isto ou aquilo?


Queremos um Brasil submetido à ambição de alguns ou um país comprometido com a saúde, a educação, o trabalho, a justiça social e a soberania de seu povo?


A escolha é nossa. E, quando se trata do destino de uma nação, escolher não é brincadeira de palavras.


Brasil se escreve com S. E o futuro que desejamos também precisa começar com S: saúde, segurança, salário, soberania, solidariedade e sabedoria.


Porque o Brasil não pertence a uma família, a um partido ou a um governante. O Brasil pertence ao seu povo.


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Mira Pimentel é Cronista.




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