Após décadas de espera, obras na Rua Manuel Duarte avançam com recursos federais
Histórica via industrial de São Gonçalo, que abriga estaleiros e atende às comunidades Vila Esperança e Pica-Pau, recebe intervenções de R$ 18,6 milhões; Jornal Daki já denunciava o abandono da rua em suas edições impressas desde 2011
Por Helcio Albano

Uma antiga reivindicação dos moradores do Porto Velho, Pontal e do Gradim, em São Gonçalo, começa a sair do papel. Depois de décadas de espera e problemas recorrentes com alagamentos, buracos e dificuldades de circulação, as obras de drenagem e pavimentação das ruas Manuel Duarte e João Damasceno finalmente avançam.
O investimento contratado é de R$ 18,6 milhões, com participação decisiva de recursos federais.
A luta pela recuperação da via é antiga e está registrada nas páginas do Jornal Daki, que, ainda em sua versão impressa, denunciava o abandono da rua Manuel Duarte (também grafada como Manoel) e acompanhava os protestos dos moradores em 2011, há mais de 15 anos.
A rua Manuel Duarte é uma das vias históricas da atividade industrial e naval do município. Ao longo de seu percurso estão instalados diversos estaleiros, responsáveis por movimentar a economia local. A região também abriga as comunidades da Vila Esperança e do Pica-Pau, cujos moradores dependem da infraestrutura viária para seus deslocamentos cotidianos.
Sua localização é estratégica para a circulação de trabalhadores, veículos de carga e mercadorias, com conexões para a BR-101 e a região da Baía de Guanabara. A via também é utilizada pelas linhas de ônibus 524 (Pontal–Niterói) e 31 (Praia da Luz–Barreto), importantes para o transporte diário da população. Assim, os problemas de drenagem e conservação afetam moradores, passageiros e atividades econômicas.
Recursos do governo federal
Documentos oficiais obtidos e analisados pelo Jornal Daki revelam que o projeto está vinculado a dois contratos de repasse do Ministério das Cidades, firmados em 2023, durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O orçamento original, de R$ 21,99 milhões, previa R$ 20,9 milhões em parcelas vinculadas aos contratos federais, aproximadamente 95% do investimento estimado. Outros R$ 1,09 milhão aparecem como recursos próprios da Prefeitura.
A licitação foi vencida pela Infratech Engenharia Ltda., com proposta de R$ 18.661.504,56, cerca de R$ 3,33 milhões abaixo do orçamento inicial.
A Caixa Econômica Federal (CEF) é responsável pela verificação das medições dos serviços vinculados aos contratos de repasse federais, etapa necessária à liberação dos respectivos pagamentos. A fiscalização da execução também cabe à Prefeitura, responsável por acompanhar os trabalhos e aprovar as medições relativas à parcela municipal.
O projeto contempla mais de 2,5 quilômetros de vias, com instalação de galerias pluviais, pavimentação, sinalização e calçadas acessíveis. A empresa contratada também é responsável pela elaboração dos projetos executivos.
Segundo a Prefeitura, até terça-feira (27), aproximadamente 30 metros de galerias já haviam sido instalados na rua Manuel Duarte. O prazo previsto para execução dos serviços é de 12 meses.
Mais do que recuperar uma via, a intervenção representa a oportunidade de enfrentar problemas históricos de infraestrutura numa região importante para a economia gonçalense. Para os moradores da Vila Esperança, do Pica-Pau e dos bairros vizinhos, a expectativa é que as obras tragam o fim dos alagamentos recorrentes e melhores condições de circulação.
MEMÓRIA DAKI | 15 anos de denúncias, protestos e promessas na Rua Manuel Duarte
Janeiro de 2011 — A rua esquecida
O Jornal Daki nasceu como um jornal de bairro, voltado ao Porto Velho e à região, em São Gonçalo. Com uma proposta de jornalismo hiperlocal, suas primeiras edições impressas deram voz aos moradores, denunciaram problemas de infraestrutura e acompanharam reivindicações que raramente encontravam espaço na grande imprensa.
A rua Manuel Duarte, uma das principais vias industriais da cidade, esteve entre as primeiras pautas do jornal. O acervo do Daki revela uma história de pelo menos 15 anos de denúncias, mobilização popular, promessas de investimentos e cobranças por uma solução definitiva.

Março de 2011 — A revolta dos moradores
Dois meses depois, a edição nº 5 estampou na capa a manchete “A chapa esquentou na Manuel Duarte”. Em 1º de março, moradores interditaram a via para protestar contra o esgoto a céu aberto, os buracos e o abandono.

Na página 3, a reportagem “Moradores perdem a paciência com descaso” registrou o depoimento de Marco Antônio, morador da região havia cerca de 40 anos. Ele denunciava a existência de uma vala de esgoto diante de sua residência, os riscos à saúde e os transtornos provocados pelo tráfego pesado.

Abril de 2011 — A promessa do PAC da Mobilidade
Na edição nº 6, o Daki noticiou: “PAC da Mobilidade promete dar cara nova a Manuel Duarte e ligar BR 101 a Alcântara”.
O projeto anunciado previa um corredor viário ligando a BR-101 a Alcântara, passando pelas ruas Manoel Duarte e Cruzeiro do Sul. São Gonçalo havia sido contemplado com R$ 280 milhões do PAC da Mobilidade. A proposta antecipava características do corredor de mobilidade que, anos depois, seria apresentado como MUVI, embora com traçado diferente.

Agosto de 2014 — Uma nova obra e antigas promessas
Três anos depois, a edição nº 11 trouxe a reportagem “Obra começou a sair do papel em julho”. O Governo do Estado havia anunciado intervenções de drenagem, terraplanagem e pavimentação nas ruas Manuel Duarte e Cruzeiro do Sul, vinculadas ao Programa de Revitalização da Pesca Artesanal, com investimento previsto de aproximadamente R$ 5 milhões e financiamento do BNDES. A conclusão era prometida para junho de 2015.
Na mesma página, o Daki publicou “Lenga-lenga com Manuel Duarte e Cruzeiro do Sul se arrasta desde 2011. Será que dessa vez sai?”, recuperando os protestos dos moradores e as promessas anteriores. A reportagem também registrava que o corredor anunciado em 2011 não havia avançado por falta de projeto executivo.

Outubro de 2026 — Uma reivindicação histórica volta a ganhar obras
Quinze anos depois das primeiras denúncias, a rua Manuel Duarte recebe novas intervenções de drenagem e pavimentação, agora vinculadas a dois contratos de repasse do Ministério das Cidades, firmados em 2023, com investimento contratado de R$ 18,6 milhões.
O acervo do Jornal Daki documenta uma história que atravessa diferentes governos: denúncias de abandono, mobilização popular, anúncios de investimentos e obras que não eliminaram os problemas históricos da via.
Nascido para contar a vida dos bairros e acompanhar suas reivindicações, o Daki chega a este novo capítulo preservando uma de suas marcas de origem: o compromisso com a memória, a voz dos moradores e a fiscalização do poder público.
Fonte: Acervo histórico do Jornal Daki — edições nº 3 (janeiro de 2011), nº 5 (março de 2011), nº 6 (abril de 2011) e nº 11 (agosto de 2014).
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