Execuções, falhas generalizadas e indenização de R$ 50 milhões; a 'Contenção' 1 ano depois
Relatório aponta indícios de execuções e graves violações de direitos humanos na operação que deixou 122 mortos; 28 policiais viraram réus e Defensoria pede reparação pelos danos causados às comunidades

Um ano depois da Operação Contenção, realizada em 28 de outubro de 2025 nos complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte do Rio, as denúncias de violações de direitos humanos ganharam novos elementos documentais. A ação policial, que deixou 122 mortos, entre eles cinco agentes de segurança, é alvo de investigações sobre uso excessivo da força, possíveis execuções, invasões de residências e irregularidades na utilização de câmeras corporais.
Relatório divulgado pela Human Rights Watch (HRW), no aniversário da operação, aponta indícios de graves abusos a partir da análise de laudos de necropsia, gravações policiais e documentos investigativos. Segundo a organização, quase 75% dos mortos que não eram policiais receberam pelo menos um tiro nas costas, mais de 60% foram atingidos por quatro ou mais disparos e mais de 40% apresentavam ferimentos na cabeça.
Os dados levantam suspeitas sobre as circunstâncias das mortes, mas não permitem concluir, isoladamente, que todas decorreram de execuções. A identificação de responsabilidades depende da análise individual dos casos e das demais provas.
A investigação também expôs problemas no registro das operações. Nenhuma das mortes aparece nas gravações de câmeras corporais examinadas pela HRW. A organização identificou mais de 250 episódios de obstrução dos equipamentos.
O Ministério Público do Rio de Janeiro constatou que, dos 685 policiais civis mobilizados, apenas 62 utilizaram efetivamente câmeras corporais. Na Polícia Militar, foram registrados problemas como equipamentos descarregados, ausência de baterias e falhas na distribuição dos dispositivos.
Policiais denunciados, mortes ainda sob investigação
Em 27 de outubro de 2026, o Ministério Público informou que 28 policiais militares foram denunciados em 12 ações penais, todas recebidas pela Justiça. Entre os crimes imputados estão roubo, furto qualificado, peculato, violação de domicílio e constrangimento ilegal.
Os agentes tornaram-se réus, mas não foram condenados. As denúncias também não representam a conclusão das investigações sobre as mortes.
Enquanto os procedimentos relativos aos cinco policiais mortos foram concluídos, as circunstâncias das 117 mortes de não policiais continuavam sob investigação no balanço divulgado no primeiro aniversário da operação.
Defensoria pede reparação às comunidades
A Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro ajuizou uma ação civil pública pedindo R$ 50 milhões em reparação coletiva pelos danos causados aos moradores da Penha e do Alemão.
A instituição relata agressões, invasões de domicílios, furtos, prejuízos materiais e sofrimento psicológico. O pedido prevê investimentos em saúde, educação, esporte, lazer e atendimento psicossocial, além de reparações individuais.
Entre os casos apresentados está o de Ronaldo Julião da Silva, pedreiro de 46 anos e pai de seis filhos, morto durante a operação. Segundo a Defensoria, ele não possuía anotações criminais e seu corpo permaneceu exposto em via pública.
O pedido ainda será examinado pela Justiça. Não há decisão definitiva determinando o pagamento da indenização.
As denúncias judiciais, os resultados periciais e os relatos dos moradores colocam sob escrutínio não apenas a conduta individual dos policiais, mas também o planejamento e o comando da operação. Permanece sem esclarecimento completo quem respondeu pela fiscalização das câmeras, pela preservação das cenas das mortes e pelas decisões operacionais tomadas naquele dia.
Um ano depois, o Estado ainda não apresentou uma reconstrução conclusiva das circunstâncias em que morreram 117 pessoas que não integravam as forças policiais.
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