Loterj autorizou negócios ligados a amigo de Flávio, que teve viagens pagas por empresa do mesmo grupo
Segundo a Folha, Flávio Bolsonaro teria indicado o presidente da Loterj a Cláudio Castro. Na gestão dele, empresas ligadas a Willer Tomaz ingressaram no mercado de apostas do Rio. PF também encontrou o senador cadastrado como “usuário master” de conta de empresa do advogado

A relação entre Flávio Bolsonaro (PL), o advogado Willer Tomaz e a Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj) reúne uma sequência de indicações políticas, negócios milionários e conexões financeiras investigadas pela Polícia Federal. Empresas ligadas a Willer passaram a atuar no mercado de apostas durante a gestão de Hazenclever Cançado, cuja indicação para a presidência da autarquia teria partido de Flávio, segundo fontes ouvidas pela Folha de S.Paulo.
A conexão ganhou novos contornos com a descoberta de documentos que apontam o pagamento de viagens internacionais do senador por uma holding portuguesa ligada ao setor de apostas. Em outra frente, investigadores encontraram o nome de Flávio cadastrado como “usuário master” de uma conta bancária de empresa administrada por Willer.
O advogado e o senador negam irregularidades e qualquer relação societária ou financeira entre eles.
A indicação de Flávio e a chegada de Cançado
Hazenclever Cançado assumiu a presidência da Loterj em julho de 2022, nomeado pelo então governador Cláudio Castro (PL).
Segundo pessoas familiarizadas com a autarquia, ouvidas pela Folha, a indicação política teria sido feita por Flávio Bolsonaro, amigo pessoal do advogado Willer Tomaz.
Em 25 de maio de 2023, Cançado assinou a autorização para funcionamento da Rede Loto, operadora da BestBet, uma das primeiras empresas credenciadas no mercado de apostas da Loterj.
A empresa havia apresentado sua documentação em 27 de abril, mesmo dia da primeira publicação do edital de credenciamento em jornal de grande circulação. A rapidez do procedimento foi questionada por outra empresa do setor.
A Loterj afirma que a Rede Loto cumpriu todas as exigências previstas no edital e que não havia impedimento legal à autorização.
A controladora da Rede Loto é a Cathedral Holdings, registrada em Portugal. Documentos examinados pela PF apontam vínculos de Willer Tomaz e do empresário Jorge Barbosa Dias com a estrutura societária da empresa.
RioPag recebeu quase R$ 188 milhões
Outra empresa que passou a operar na Loterj durante a administração de Cançado foi a RioPag, responsável pelo processamento dos pagamentos das casas de apostas credenciadas pela autarquia.
Segundo levantamento do UOL, baseado em dados oficiais, a RioPag recebeu aproximadamente R$ 187,8 milhões entre junho de 2023 e agosto de 2026, em receitas de intermediação de pagamentos.
O valor corresponde a cerca de 80% dos R$ 233 milhões arrecadados com o serviço. A Loterj recebeu aproximadamente R$ 45,2 milhões.
Documentos societários examinados pela Folha indicam que Willer Tomaz adquiriu o controle da processadora por meio da Embrasis, em 2024. O advogado nega ser proprietário da RioPag e afirma atuar apenas como seu representante jurídico.
Em setembro de 2026, a Loterj rescindiu o contrato, acusando a empresa de reter repasses devidos ao estado. A RioPag contestou a decisão e conseguiu uma liminar que suspendeu as penalidades. A disputa permanece judicializada.
A contratação da RioPag ocorreu antes da aquisição de controle atribuída a Willer. Portanto, os documentos divulgados não demonstram que o advogado controlasse integralmente a empresa quando ela começou a operar na Loterj.
Holding ligada à BestBet pagou viagens de Flávio
A relação entre o senador e o círculo empresarial de Willer ganhou uma dimensão financeira com documentos encontrados pela Polícia Federal.
Segundo a Folha, registros extraídos do computador do advogado mostram que a Cathedral Holdings contratou voos executivos utilizados por Flávio Bolsonaro, Willer Tomaz e familiares em 2025.
Os deslocamentos incluíram trajetos entre Portugal e França, com passagens por Lisboa, Nice e Paris.
A Cathedral é justamente a controladora da Rede Loto, autorizada pela Loterj em maio de 2023, durante a gestão de Cançado.
A defesa de Willer afirma que as viagens foram passeios particulares entre amigos e familiares, custeados pessoalmente pelo advogado, sem qualquer contrapartida. Flávio também nega irregularidades.
Não há demonstração pública de que as viagens tenham sido financiadas com receitas da RioPag ou recursos desviados da Loterj.
Flávio aparece como “usuário master” de conta ligada a Willer
Outro elemento identificado pela Polícia Federal amplia as dúvidas sobre a natureza da relação entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz.
E-mails recuperados do iCloud do advogado indicam que o senador figurava como “usuário master” de uma conta bancária da Alcazar Holdings, empresa administrada por Willer e sediada na Ilha da Madeira, em Portugal.
Segundo os investigadores, essa condição conferia, em princípio, elevado nível de acesso e gerenciamento da conta mantida no Santander. O registro passou a ser examinado como possível indício de participação econômica ou societária do senador na empresa.
Em 22 de maio de 2025, uma funcionária de Willer solicitou ao banco a desvinculação do nome de Flávio. O Santander respondeu que as contas haviam sido excluídas do contrato.
A Alcazar Holdings também detinha participação em um jato executivo utilizado pelo senador em janeiro de 2025, em viagem entre os Estados Unidos e o Brasil. Entre os demais participantes da propriedade compartilhada da aeronave estava o banqueiro Daniel Vorcaro, então ligado ao Banco Master.
Flávio e Willer negam qualquer sociedade ou relação financeira. A defesa do senador sustenta que o cadastro bancário foi realizado indevidamente e posteriormente corrigido.
Os documentos divulgados não demonstram que Flávio tenha efetivamente movimentado recursos da conta.
PF investiga conexões financeiras
As relações empresariais identificadas durante as investigações sobre Willer Tomaz levaram a Polícia Federal a encaminhar ao Supremo Tribunal Federal informações envolvendo Flávio Bolsonaro.
O material inclui documentos societários, registros bancários e referências a despesas particulares do senador.
A investigação examina possíveis irregularidades financeiras, mas ainda não estabeleceu que Flávio tenha cometido crimes, participado de lavagem de dinheiro ou interferido nas decisões administrativas da Loterj.
Uma sequência de negócios e benefícios
Os acontecimentos revelados pela imprensa estabelecem uma cronologia que merece esclarecimentos.
Primeiro, a indicação de Hazenclever Cançado para a presidência da Loterj, atribuída a Flávio por fontes da Folha. Depois, a autorização da BestBet e a contratação da RioPag durante a administração do dirigente.
Em seguida, aparecem os vínculos empresariais de Willer Tomaz com as duas operações, o pagamento de viagens internacionais do senador por uma holding ligada à BestBet e seu nome no cadastro bancário da Alcazar Holdings.
A amizade entre Flávio e Willer não constitui irregularidade por si só. Também não está demonstrado que a suposta indicação de Cançado tenha resultado em favorecimento ou que os pagamentos das viagens representem contrapartida por negócios autorizados pela Loterj.
Mas a combinação entre influência política, empresas beneficiadas por decisões de uma autarquia estadual e despesas particulares de um senador custeadas por uma estrutura empresarial ligada a essas operações exige explicações.
A investigação precisa esclarecer quem participou das decisões administrativas, quem controlava efetivamente as empresas, qual foi a origem dos recursos utilizados nas viagens e por que Flávio aparecia como “usuário master” de uma conta bancária ligada a Willer.
São esses elementos que poderão determinar a natureza das relações entre o senador, o advogado e os negócios da Loterj.
Entre no nosso grupo de WhatsApp AQUI.
Ajude a fortalecer nosso jornalismo independente contribuindo com a campanha 'Sou Daki e Apoio' de financiamento coletivo do Jornal Daki. Clique AQUI e contribua.









































































Comentários