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Jonas, o radical

SÃO GONÇALO DE AFETOS


Por Paulinho Freitas

Foto: Pixabay
Foto: Pixabay

As décadas de 80/90 foram uma espécie ápice da boemia gonçalense. Época em que a águia da Portela voou de Madureira a São Gonçalo, pousou no Esporte Clube Mauá, espalhou seu azul e branco por toda a cidade, cravando suas garras no coração do gonçalense de tal forma, que a maioria das pessoas que viveu aquela época tem a Portela como o primeiro e único amor carnavalesco. 


Naquela época também, ali no bairro Paraíso surgia o bloco da Serpente, que também se transformaria num point cultural da cidade com festas durante quase todo o ano, o Arraiá da Serpente fez muito sucesso. 


No bairro Mangueira, sua festa de rua também era disputadíssima e as lojas do rodo, Alcântara e até as de Niterói faturavam alto nessa época do ano. Todo mundo queria impressionar, cada semana com um look diferente.  



No Porto da Pedra, o Arraiá do Tio Nonô, a famosa festa da ATN, não ficava atrás. Semanas arrastando multidões de todos os cantos da cidade. Não é raro conversar com alguém que começou a namorar na festa e hoje conta as histórias para os netos com aquela lagrimazinha rolando no rosto. A festa da ATN derrubou um show de Jorge Benjor no Tamoio, segundo conta Paulino, produtor do show que até hoje não se conforma com concorrência desleal que acabou com sua carreira. Todo gonçalense tem um causo para contar vivido ou presenciado em uma dessas festas.

 

No meu caso lembro do Jonas. O conheci garoto, com uma bicicleta de rodas finas, naquela época já empinava e descia o morro da Madama com ela sem os freios, atravessando a rua dr. Gradim e subindo o outro morro no embalo. Era uma roleta russa sem precedentes para a época e ele era considerado o ídolo da rapaziada. Nunca vi Jonas sério, de mau humor, aborrecido com alguém ou mesmo falando mal de alguém. Jonas era o chamado gente boa na época, o chamado de sangue bom hoje em dia. Ele só queria inventar acrobacias com sua “magrela”, dormia e acordava feliz. 


Jonas cresceu nessa vibe e da bicicleta, pulou para uma 125cc e logo após para uma gigante 450cc, a maior cobiça de nosso tempo. Jonas chegava nas festas juninas já citadas fazendo barulho e causando furor nas meninas que quase saiam no tapa, literalmente, para dar uma volta na garupa de seu cavalo de ferro, aliás, esse era o nome do clube de motociclistas que ele integrava. Jonas era aquele amigo que aconselhava, que mostrava um dia lindo para aqueles olhos que só enxergavam nuvens negras.


Mostrava as qualidades, se é que existem, nos defeitos de alguém, defendia quem tinha razão e aconselhava o vacilão. Costumava vir do trabalho pela Niterói-Manilha tirando o máximo do motor, o casaco de couro e as botas sentiam frio, tal a velocidade imprimida.


Envelheceu fazendo isso. Graças a Deus, nada de grave aconteceu com ele e nenhum acidente fatal causou. Não se casou, vive hoje na serra, bem escondido, só vai a cidade uma vez por mês para comprar mantimentos e ver se garimpa um vinil antigo na feira. Vive com um violão, a moto e um cachorro, ouvindo rok and rol e rindo das travessuras que fez durante a vida, que tantas boas lembranças deixou em todos aqueles que tiveram o privilégio de conviver com ele. Uma pessoa assim só nasce uma por geração. 


 Que sorte a minha! 


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Paulinho Freitas é sambista, compositor e escritor.

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